"O Senhor Brecht" de GMT em Portugal



Começou em 2011 quando meu irmão, o diretor professor e escritor Juarez Guimarães Dias, veio a Lisboa concluir sua tese de doutorado “Narrativas em cena: Aderbal Freire-Filho(Brasil) e João Brites (Portugal)” e aqui viveu por 6 meses. Teve contato com a literatura de Gonçalo M. Tavares e me emprestou o livro “O Senhor Brecht” propondo-me a produção da montagem, na qual me dirigiria. Convidei o magnífico ator Lourinelson Vladmir, a quem denomino “rapsodo-mor”, para integrar o elenco. No projeto tínhamos cenógrafo, preparadora corporal, iluminadora, figurinista, até um correspondente de Lisboa via skype, o dramaturgo lisboeta Mickäel de Oliveira) – a encenação era ambiciosa, assim como a circulação. Aprovada pela Lei Rouanet (e jamais captada), prevíamos passar por quatro estados brasileiros e também por quatro países de língua portuguesa - Portugal, Cabo Verde, Moçambique e Guiné-Bissau.


Diante da dificuldade de se levantar esta verba, depois de 1 ano simplificamos o projeto. Utilizamos até como justificativa a tragédia nuclear de Fukushima, quando naquele momento as palavras de "O Senhor Brecht" se faziam ainda mais necessárias. Mas nada. Um edital, dois, três. Um ano, outro, e nada.


Em 2014 caducou a licença dos direitos de autor para captação. Envergonhada, passei mais de um ano ruminando a vontade de renová-los. Não tive coragem de escrever para o autor, sabia que era dar murro em ponta de faca. Para que a coisa acontecesse, teria de traçar um novo caminho - e este se deu logo Depois das grandes mudanças no país*. Abismada com os acontecimentos recentes no Brasil, saquei “O Senhor Brecht” da estante para me salvar numa tarde de várias notícias absurdas, uma mais que a outra. No dia seguinte liguei para o Louri “Não aguento mais. Vou levantar o Senhor Brecht de forma independente, vamos? Estou indo". Marcamos os dois para relermos juntos, e encontramo-nos na praia, fim de tarde. Esta caiu e continuávamos a ler, em voz alta, e uma amiga dele que passara por ali permaneceu nos ouvindo e por vezes leu conosco. Ao fim do livro, havíamos definido o Sala para Rapsódias e a existência do multiplicador (diante da presença ativa desta amiga/ouvinte, invertendo ali os papeis). E que não disporíamos de mais nada além de nossos corpos e vozes, abandonando todos os artifícios teatrais, mesmo porque não tínhamos salas de teatro. Circularíamos então por salas de casas.


Marcamos a primeira sessão para dali a 2 meses, em São Paulo, e fomos gentilmente recebidos na sala do escritório da Companhia do Latão. Além de amigos queridos, contamos com o incentivo e a presença do autor, o escritor GMT, que se encontrava na capital ministrando um curso.


O Sala para Rapsódias baseia-se no que Pasolini definiu em seu Manifesto por Novo Teatro, como o “Teatro da Palavra”, trazido por Louri de sua trajetória como rapsodo homérico (recita os cantos 1, 2, 6 e 9 da “Ilíada”). O multiplicador é o ouvinte da sessão que demonstra interesse em também contar as estórias de “O Senhor Brecht”, e passa a trilhar seu próprio caminho.


No Brasil, a possibilidade da existência do multiplicador neste momento de grave crise social, em que as principais verbas da cultura têm sido cortadas ou congeladas, em que as secretarias de cultura têm se mesclado às de esporte e turismo, é de fundamental importância para o aprimoramento do trabalho do artista que agora se vê na obrigação de justificar sua existência através de suas próprias ferramentas de trabalho.


Neste caminho, ‘meu’ “O Senhor Brecht” foi acolhido no Brasil primeiramente em casas de amigos, passando para as dos amigos dos amigos, e por consequência, às dos amigos dos amigos dos amigos, que por afeto se tornaram também amigos meus. Agradeço a todos pela oportunidade e interesse, e digo que volto logo para continuar o circuito que mal começou e já se mostrou aí um solo fértil, tendo como termômetro o bom e velho "chapeu", aquele que não mente.   

A sala de casa aproxima, dá intimidade, revela quem somos. Na sala de casa é onde conversávamos os assuntos mais importantes, e hoje anda abandonada, cada membro da família é auto-suficiente com seu telemóvel entre as quatro paredes do quarto de mal dormir. “O Senhor Brecht” é urgente. As estórias de GMT provocam o afeto quanto à nossa condição humana, diverte e faz refletir. Ali estamos em conjunto, é gente falando com gente. Sentimo-nos mais fortes, frente a um cotidiano de intenso massacre da subjetividade, causada pela sedutora tecnologia, isso para não falar da neurociência.


Cheguei ontem em Lisboa. Não sei como será, aqui conheço ninguém além de minha querida e carinhosa anfitriã Maria Manuel, Miúcha para os íntimos. Amanhã me encontro com Catarina Real, artista plástica que se interessou pelo projeto e tem me indicado vários lugares. No Porto, há sessões marcadas para maio, que meu amigo diretor e dramaturgo Jorge Louraço Figueira está cavando. Em Belo Horizonte, o multiplicador Gabriel Castro Cavalcante se apresenta este fim de semana com 'seu' sr. Brecht, sob orientação artística de Juarez Guimarães Dias. Não estou sozinha, e há outros multiplicadores interessados no Brasil, estudando o texto. Já já eles aparecem. Falaremos em coro cada vez maior. O coro do afeto. E este coro somente me é possível realizar porque conto com a eficiência do trabalho de Henrique Landulfo como produtor administrativo.


Depois de circular Portugal, tenho adiante Cabo Verde, Moçambique e Guiné-Bissau para trilhar, e não faço hoje a menor ideia de como nem quando chegarei lá - assim como não tinha ideia de como chegaria aqui. Estou apenas cumprindo um projeto aprovado em 2011 pela Lei Rouanet (e jamais captado), porque a necessidade existe, não é virtual nem trabalho para se ganhar dinheiro ou visibilidade. Se a África não for possível desta vez, será da outra. Não tenho pressa, tenho fé. Além de muitas saudades de todos vocês, meus amigos queridos. Já já estou de volta, meu ponto de partida será sempre.

 

* "Mudanças

Tinha sido manicure num cabeleireiro. Depois das grandes mudanças no país, e aproveitando a anterior experiência profissional, era agora uma das funcionárias que amputava dedos aos criminosos."

(Gonçalo M. Tavares, "O Senhor Brecht")


Manifesto por novo teatro - O teatro da Palavra - Pasolini

"O teatro que esperamos, inclusive o mais absolutamente novo, não poderá ser nunca o teatro que esperamos. De fato se esperamos um novo teatro, esperamos necessariamente dentro das idéias que já temos, além disso, aquilo que esperamos, de alguma forma já está aí.

A Quem se Destina

Os destinatários desse novo teatro não serão os burgueses, (que vão ao teatro para divertir-se e que, às vezes, escandalizam-se) e sim, os grupos avançados da burguesia constituídos pelos poucos intelectuais realmente interessados em cultura: progressistas de esquerda, sobreviventes do laicismo liberal e radicais. Esses grupos avançados nem se divertirão e nem se escandalizarão, já que são em tudo semelhantes ao autor. Essa classificação é e pretende ser esquemática e terrorista.

A uma senhora que freqüente os teatros da cidade, se aconselha calorosamente que não assista às representações do novo teatro. Ou, caso se apresente com seu simbólico, patético, casaco de vison se encontrará na entrada um cartaz explicando que as senhoras com casaco de vison deverão pagar um preço trinta vezes maior que o preço normal. Nesse mesmo cartaz, ao contrário, estará escrito que jovens fascistas menores de vinte e cinco anos poderão entrar de graça. Além disso, pediremos também que não aplaudam. Vaias e demais provas de desaprovação serão admitidas.

O Teatro de Palavra

O novo teatro quer definir-se como Teatro de Palavra. Incompatibiliza-se tanto com o teatro tradicional como com todo tipo de contestação ao teatro tradicional. Remete-se explicitamente ao teatro da democracia ateniense, saltando completamente toda a tradição do teatro burguês, e porque não dizer a inteira tradição moderna do teatro renascentista e de Shakespeare. Espera-se do espectador mais o escutar que o ver. As personagens são idéias a serem ouvidas.

Destinatários e Espectadores

Acreditamos que os grupos avançados de cultura já podem constituir-se numericamente em um público, produzindo o seu próprio teatro. Estabelecendo assim, na relação entre autor e espectador, um feito único na história do teatro, pelas seguintes razões:

1- É um teatro possibilitado, solicitado e desfrutado no círculo cultural dos grupos avançados de cultura.

2- Representa o único caminho para o renascimento do teatro num país onde a burguesia é incapaz de produzir um teatro provinciano e acadêmico, e onde a classe operária é absolutamente alheia a esse tipo de problema.

3- É o único que pode chegar, não por determinação ou por retórica, à classe operária. Já que esta se encontra de fato unida por uma relação direta com os intelectuais avançados.

A que se opõe o Teatro de Palavra

O Teatro de Palavra opõe-se ao teatro de falatório (tradicional) e ao teatro do gesto e do grito (não tradicional). Desta dupla oposição nasce uma das principais características do Teatro de Palavra: a ausência quase total de ação cênica, desaparecendo aí quase totalmente portanto, a encenação. Reduzindo todos os seus elementos (luz, cenário, figurino, etc...) ao indispensável. Não deixará de ser entretanto uma forma de rito ( ainda que jamais experimentada ). Seu rito não pode ser definido de outro modo que RITO CULTURAL.

O Ator do Teatro de Palavra

O ator do Teatro de Palavra não terá que sustentar sua habilidade no atrativo pessoal (teatro tradicional), ou em uma espécie de força histérica e messiânica (teatro não tradicional), explorando demagogicamente o desejo de espetáculo do espectador (teatro tradicional), ou enganando o espectador mediante a imposição implícita de fazê-lo participar de um rito sacral (teatro não tradicional). Terá que sustentar sua habilidade em sua capacidade para compreender realmente o texto e ser assim, veículo vivo do próprio texto. Será melhor ator quanto mais o espectador, ao ouvi-lo dizer o texto, compreenda o que o ator compreendeu. O ator do Teatro de Palavra terá que ser simplesmente um homem de cultura.

Epílogo

O Teatro de Palavra é um teatro completamente novo, porque se dirige a um novo tipo de público.

O Teatro de Palavra não tem nenhum interesse espetacular, mundano, etc... Seu único interesse é o cultural, comum ao autor, aos atores e aos espectadores, que portanto, quando de reúnem, cumprem um RITO CULTURAL."

Ação: Na rua, onde somos iguais

Hoje Glauce participou da ação Rosas Gentis em Conselheiro Lafaiete/ MG, distribuindo rosas brancas a pessoas da cidade. A ação é produzida e idealizada de forma independente pela escritora Claudia Guimarães.





"O Senhor Brecht" na mostra Solo de Quintal em Dourados, MS



Do livro de Gonçalo M. Tavares
Narradora: Glauce Guima
Duração: 60 minutos
Classificação: 14 anos


 





SOLO DE QUINTAL é uma Mostra Nacional de Solos a ser realizada em quintais de residências, na cidade de Dourados, Mato Grosso do Sul.
Fotos: Raíque Moura

Sala para Rapsódias



"Sala para Rapsódias" é um projeto de narração em salas de casas, escolas, instituições, espaços culturais, buscando preservar uma prática milenar, inspirada nos rapsodos gregos e em Sherazade de "As mil e uma noites", de reunir pessoas num mesmo lugar para ouvir e compartilhar histórias da vida humana. Atualmente estão em repertório as microficções de "O Senhor Brecht" de Gonçalo M Tavares.










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Glauce Guima é premiada em Lisboa por sua atuação em "BR716"

http://www.portugaldigital.com.br/

Lisboa - O filme "Big Jato", a quarta longa-metragem do realizador brasileiro Cláudio Assis, foi o vencedor da categoria de melhor filme na 8ª edição do FESTin - Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa.
Esta história irreverente sobre um limpador de esgotos e seu odiado irmão gémeo, interpretados por Matheus Nachtergaele, foi a que mais agradou ao júri composto pelas atrizes Carla Chambel e Joana de Verona e pelo fotógrafo Chico Aragão. É a segunda vez que um filme de Assis é distinguido na categoria, depois de "Febre do Rato" ter sido o melhor filme em 2011.
Nachtergaele também foi o melhor ator, enquanto Glauce Guima, de "BR 716", obra merecedora de uma menção honrosa, foi a melhor atriz. Por seu lado, Érico Rassi, de "Comeback", foi escolhido como melhor realizador, enquanto "Uma Vida à espera", de Sérgio Graciano, foi o vencedor do prémio do público.
Já o prémio da crítica, concedido por um júri composto por Inês Lourenço (Diário de Notícias), Carlos Natálio (A Pala de Walsh) e Vasco Batista Marques (Expresso), foi entregue a "Comeback", do realizador Érico Rassi.
Por fim, destaque ainda para "Curumin", obra de Marcos Prado que foi galardoada com a distinção de melhor documentário, e "Universo preto paralelo", de Rubens Passaro, a melhor curta-metragem.
Lista completa dos vencedores:
Melhor Longa-Metragem de Ficção: "Big Jato", de Cláudio Assis
Melhor Longa-Metragem de Ficção – Prémio da Crítica: "Comeback", de Érico Rassi
Melhor Longa-Metragem de Ficção – Júri popular: "Uma Vida à Espera", de Sérgio Graciano
Menção Honrosa Longa-Metragem de Ficção: "BR 716", de Domingos de Oliveira.
Melhor Realizador: Érico Rassi, de "Comeback"
Melhor Ator – Matheus Nachtergaele, por "Big Jato"
Melhor Atriz – Glauce Guima, por "BR 716"
Melhor Documentário – "Curumim", de Marcos Prado
Menção Honrosa Documentário – "Todos", de Marilaine Castro da Costa e Alberto Cassol
Melhor Documentário – Júri popular: "Um Sonho Soberano" de Gonçalo Portugal Guerra
Melhor Curta-Metragem – "Universo Preto Paralelo", de Rubens Passaro
Melhor Curta-Metragem – Júri popular: "Kuru", de Francisco Antunez
Menção Honrosa para Curta-Metragem – "Rosinha", de Gui Campos
Melhor Infanto/Juvenil Júri Adulto – "Lua em Sagitário", de Márcia Paraíso
Menção honrosa Infanto/Juvenil Júri Adulto – "O projeto do meu Pai", de Rosaria
Menção Honrosa Júri Infantil – "Pequenos Animais sem Dono", de Maju de Paiva

Fonte http://www.portugaldigital.com.br/

"O Senhor Brecht", de Gonçalo M. Tavares


A sala


Esta a primeira frase da obra.

As artes plásticas têm encontrado o caminho de volta ao seio das comunidades: uma ou várias casas na vizinhança que compõem um circuito de artes. A culinária idem. A música nunca saiu da casa. A música é das salas dos músicos (o Rock só foi pra garagem porque é muito barulhento), ela sai,  vai a shows, encontra centenas, milhares, mas volta pra casa e se faz tão música na sala quanto foi na multidão. O teatro também tem essa acolhida das salas de casa, sempre teve. Mas o que talvez nos falte, a nós gente de teatro, é um pouco do desprendimento das outras artes na sua relação com esse lugar humano, caseiro. Usá-la sem adaptações, sem truques, sem tentar aproximá-la ao nosso teatro ideal, o que só a fragiliza e a precariza; idealização que a rigor desonra a sala de casa e o próprio teatro.

Umas das coisas que Brecht mais claramente buscou fazer nas suas formulações sobre teatro (tocando agora no fato de que o personagem ter esse mesmo nome), foi revelar o que de natural há na representação: ela é um artifício humano básico. Reconectar ator e público com a naturalidade do artifício teatral é algo que o dispositivo Sala de Casa oferece com maior potência que qualquer outro.

 
Praticamente vazia

Sendo você que nos lê, como nós, gente de teatro, concordará que o “estar praticamente vazia” da frase é o comentário documental sobre a nossa situação.

São muitas as urgências que o nosso tempo impõe, e a nós que somos o teatro é imperativo arejar o tempo com palavras necessárias, preencher o vazio que está sendo imposto, resistir, mostrar a suficiência de nossas vozes e corpos – atrizes, atores - narradores. Primeiro mostrar quem somos, a viemos, de onde viemos (rapsodos, griots) sem as mistificações que também nos esvaziam. Sermos um pouco - só pra recomeçar! - apenas o que somos: veículos da cultura, contadores de mitos, fábulas, histórias; instauradores de um rito cultural ancestral comum.


Apesar de

A sala não está vazia. Há aquele átimo de combustível para receber a fagulha da instauração do rito: há ao menos um outro.

Um lugar de acolhimento, um outro semelhante diante de um semelhante com suas histórias. Eis um antiquíssimo artefato da cultura. Explosivo. Poderoso. Não convém perdê-lo. Sim, é imperdível e necessário e já se tornou urgente. 








Récita realizada por Lourinelson Vladmir e Glauce Guima em novembro de 2016 na sala da Companhia do Latão/ SP, e contou com a presença do escritor Gonçalo M. Tavares, amigos e militantes políticos.