Cordas

"Mulher Alada", tela de Sérgio Ricardo

Que eu conheci Mariana? Hum... uns... nove? Nove. Nove meses. Nove meses e vinte e... um dias. Eu tinha acabado de sair da missa de sétimo dia da Diana, numa bela manhã de domingo,

ainda com os pensamentos voltados pra Cristo e pra Santa Virgem, estava eu placidamente tomando rumo de casa .

e fui pro ponto de ônibus ali da praça Santos Dumont e ela estava lá, sentada, lendo um livro.

Lembrei uma frase que a Diana falava muito nas mais diversas situações "Senhor deus dos desgraçados, dizei-me vós, senhor deus, se é loucura ou se é verdade..." e penso de onde Diana tirou essa frase porque só agora entendo por que ela a dizia sempre com muita vontade. Vendo Mariana sentadinha, perninhas cruzadas, a saia pregueada que o vento levantava, só me vinha essa frase na cabeça. Mariana sem desgrudar os olhos do livro e sem se preocupar em espiar se seu ônibus se aproximava ou não. Depois de um tempo pensando em como travar uma primeira transação ali mesmo no ponto de ônibus

Perguntei, sem querer incomodá-la, que livro ela lia.

e perguntei o que ela lia sabendo que essa tarefa me exigia um esforço imenso porque tenho pavor de literatura.

A minha casa, vocês viram, é cheia de livros por todos os lados. Li todos, e se repararem ainda mais, todos têm anotações e diálogos com os autores. Sempre fui muito interessado em literatura.

As pessoas ficam lendo lendo lendo depois falam falam falam. Diana ouvia e reproduzia as vozes do narrador. Dizia, querendo justificar-se, que a voz do narrador é a linha, é a imagem, é a poesia. Que caralho de poesia o quê!... Aquilo me irritava tanto porque invariavelmente isso acontecia quando estávamos no meio da trepada e ela soltava coisas como "No dia seguinte, entrou no meu quarto uma borboleta. Lacei mão de uma toalha, bati-lhe e ela caiu. Não caiu morta; ainda torcia e movia as farpinhas da cabeça." E depois ria, ria. E repetia "ainda torcia e movia as farpinhas da cabeça". É claro, logo na borboleta eu já havia saído de cima dela, e no fim da frase o meu pau já estava na metade do percurso descendente e eu olhando-o, triste, ele triste e eu triste, pensando nas farpinhas que me lembraram aranha e eu tenho pavor de aranha, um dia matei uma toda cabeluda e fiquei três noites sem dormir. Admito que aquele movimento deprimente-descendente também era um acontecimento involuntário, e por isso não podia dar um safanão na Diana porque apesar dela ter esse problema de comunicação com gente que não existe, eu gostava muito dela. Por outro lado, o meu pau é um ser que possui vida própria e existe, é concreto, eu posso pegá-lo. E quem deveria pegá-lo e acariciá-lo deveria ser a Diana, culpada daquilo tudo. E me vinha uma vontade de dizer uma coisa a Diana, uma coisa óbvia, que O que move o mundo é o sexo! O sexoooo! Não é a literatura. É o sexo! Mas ela não entenderia.

Diana também gostava muito de ler. Pobrezinha da Diana!... Sim, sim, perdão. A Mariana... Mariana me respondeu depois de me examinar longamente com os olhos que mesmo que ela me dissesse o que estava lendo eu não iria entender.

Mariana parecia muito maior do que eu.
Mas nada disso importa agora. Os tamanhos, as buscas... importam só para quem as procura. E antes da morte, porque depois só ares e vôos e reconhecimentos. O amor quer o aprisionamento, sendo uma forma antinatural de por exemplo comprar bananas na feira, de dormir um pouco além da conta, de perder o sono em função das origens das coisas. É muito fácil botar a culpa em quem não está presente. Pandora, por exemplo. Freud, tinha dores de barriga terríveis. Bastou um único banho para que Arquimedes saísse correndo enrolado na toalha e gritando Eureka. Conheço um grande gênio cuja cabeça é desprotegida de raios e tiros.

Sim senhor, serei mais objetivo.
Tenho uma coleção de cordas em casa...

(...) nº 1

"Metrópolis", de Fritz Lang - 1927- Alemanha

Digito a última palavra do relatório de hoje que salvo na área de trabalho como "Relatório 177" e envio para a Corporação, com cópia para todos os departamentos. Todo fim de expediente a mesma coisa, amanhã será o 178 e assim por diante, até chegar ao duocentésimo quinquagésimo quarto relatório, do último dia útil deste ano de maior número de dias úteis da última década. Ano passado foram duzentos e cinquenta e consequentemente duzentos e cinquenta relatórios. Ano retrasado foram duzentos e quarenta e nove. Este ano tem duzentos e cinquenta e quatro porque tem feriado pra todo lado caindo nos sábados, o que por um lado é bom porque sábado é praia, e quando é feriado a praia fica cheia de gente bonita, gente de fora, e é só gente bonita pra lá e pra cá, então eu me sento no meu quiosque sagrado com minha latinha que saco magistralmente do isopor portátil que levo de casa com gelo de forma e meio litro de álcool que é pra conservar e então me sento ali e me ponho a ver as belezuras porque feiura eu nem vejo e nem sei que existe. Então rezo rezo agradecendo a Deus.


Amanhã é domingo!

Depois segunda...

Dia de semana ando rápido. Saio do trabalho atravesso a praça redonda em linha reta passando pelo ponto central. Traço diâmetros, sempre com perfeição, encurto caminhos. Tenho pressa, dia de semana sempre tenho pressa, o sol sempre cai e eu sempre quero pegar a luz do fim do dia em casa.
Chego, jogo a pasta em cima da cama, abro a cortina a janela libero os punhos tiro sapato meia, úmida. Destampo a lente, me posiciono.


Vejo que há coisas incomuns. Muito incomuns, pra falar a verdade. Cama arrumada, cabelos penteados. Zoom (...) Engraçado, agora penso, é como se ela já estivesse pronta para o ocorrido logo depois. Pensar que realmente as pessoas podem pressentir o futuro ou alguma tragédia pessoal, algo que lhes mude o destino, contrariando a cegueira de Édipo, é algo que me assusta. Ah, Tirésias, Tirésias! Tudo se mostra agora extremamente coerente.
Ela continuou sentada na cama arrumada, cabelos penteados, olhando pela janela. Via-se o céu e ela parada, só olhando. O sol nasceu e antes a noite as cigarras as nuvens vermelhas indicando a programação do dia seguinte. Do vermelho fez-se o roxo e púrpura e então a cor da manhã. E os pássaros.


Nada entendo de nada, são mil e uma voltas, vou viver mais de cem, é verdade, é genético!, mas não dou conta, não dou conta!, continuarei sem entender.


Fecho minhas cortinas.


Três horas de sono.


O Dia seguinte


Dia de semana ando rápido. Saio do trabalho atravesso a praça redonda em linha reta passando pelo ponto central. Traço diâmetros, sempre com perfeição, encurto caminhos. Tenho pressa, dia de semana sempre tenho pressa, o sol sempre cai e eu sempre quero pegar a luz do fim do dia em casa.


Chego, jogo a pasta em cima da cama, abro a cortina a janela libero os punhos tiro sapato meia, úmida. Destampo a lente, me posiciono.


Ela na cama desarrumada, cabelos desgrenhados. Do roxo fez-se o vermelho e então o escuro da noite. E os urubus.


Quando anoitece


Estou de pé, à sua frente, você deitado assim como sempre. Tiro calmamente o sutiã, olho seus olhos, você deitado e um dos braços segurando a cabeça. Inclina-se pra frente, assim me vê melhor e me vendo melhor se sente capaz de ordenar suas diretrizes deitando o pensamento no indizível. É verdade, indizível. Então deixo cair descuidada e teatralmente uma das alças do sutiã. Depois a outra. Essa foi previsível mas poderia não ser. Deixo meus ombros livres como os das musas renascentistas. O meu ombro é branco como o delas, mas com uma singela diferença perceptível somente aqui no seu quarto.

Estou de pé, os pés pressionam os dois tacos bambos do chão, penso em tatear algo mais seguro, mas não, daqui te vejo sem maior esforço. Devo estar leve e serena. Ou pelo menos me parecer. Você deitado, os pés se cruzam balançando os dedos, coçam-se uns aos outros. Reflexo. (...) Confortável, porque é assim que tem que ser; e eu me equilibro sabendo que virá um rangido com meu próximo movimento. Preocupo-me em imprimir um gesto exato, preciso, ritmado. Seus olhos atentos um pouco esticados para caber o sorriso de trás. Claro, fiz tudo ao seu modo. Terminado o jantar lavei a louça beijei suas mãos em concha conduzindo-as até aqui com uma mão, a outra apagando as luzes. Durante o percurso me perguntou se eu não me importo com essa calmaria de tudo, e disse carinhosamente que a comida estava deliciosa. No fim do caminho você sempre diz
o Desejo não é fato consumado.
E eu, concordando:
o Desejo é latência pura, circular,
a mais primitiva das formas de vida.
Essas nossas últimas palavras, até que novamente amanheça.

Fragmento II



Hoje o Jorjão ficou de passar aqui às 9 da manhã. É domingo e ontem foi aniversário da minha amiga Assunção, que se eu não fosse a esse aniversário ela ia me matar, ou então falar na minha cabeça durante 1 ano porque eu não fui, como foi no ano passado. Então eu fui. A Assunção me pediu pra chamar meu amigo Dino, amigo e vizinho, pra ir também no aniversário dela. É que o Dino, na hora que a Assunção me ligou pra falar do aniversário, tinha acabado de sair daqui de casa me ajudando a trocar os móveis de lugar. É que eu tava no ônibus vindo pra casa e pensando no tanto que eu queria mudar os móveis de lugar. Subi no elevador e parei dois andares acima do meu pra bater na porta do Dino, e essa porta tem um desenho dele mesmo, um bonequinho parecido com ele e escrito embaixo "Dino", fazendo o chão pro bonequinho não voar, essas coisas que só gente de psicologia nota (eu não sou de psicologia). E pensei no tanto que o Dino é esperto porque não dá pra confundir a casa dele. Nosso prédio tem todas as portas iguais, todos os corredores iguais, então é fácil bater na porta dos outros por engano se não olhar direito o número em cima da porta. Então vi o desenho, vi que era mesmo a porta do Dino, testei a campainha (não funciona), bati três vezes com o dedo médio, que é o que ressoa mais. Esperei em frente ao olho mágico pro Dino ver que era eu, porque nesse nosso prédio tem tanta gente, dizem que mais de 2100 pessoas, e não é todo mundo que abre a porta assim, sem ver antes pelo olho mágico. Porque o nosso prédio não tem interfone, então pra falar com alguém, só mesmo batendo na porta e ficando em frente ao olho mágico. Então o Dino deve ter visto que era eu porque nem demorou a abrir. Abriu, deu um sorriso de Dino, eu retribuí um sorriso meio assim sei lá de quê, e disse "Dino, você tá muito ocupado?", "Tô almoçandinho...", "É que... será?, pode?, é muito pesado... depois do almoço... Te espero então, sem pressa. Obrigada, Dinoooo!". Desci correndo os dois lances de escada e, chegando em casa, passei um café fresco e bem forte pro Dino que não quis café nenhum, quis foi a cachaça pau pereira que é maravilhosa e que foi o meu benzinho que trouxe aqui pra casa. Meu benzinho é aquele amorzinho com quem eu tava falando no Fragmento anterior, o dos seiscentos que vai virar zero, e que não vejo a hora dele voltar.
Ontem, no início, eu tava falando com ele. Por isso que tem aquelas coisas de ninfeta e de homem descendo as escadas. Aquelas outras de ovo herdado e de língua divina fui eu também que falei, mas é como se não fosse. E depois eu esqueci tanto e gostei tanto da novidade que eu tava falando não sei pra quem, que esqueci dele pensando que tinha gente me ouvindo contar aquilo tudo, e que eu não sabia quem que era. Engraçado porque parecia mesmo que a casa tava cheinha de gente. Mas não fique chateado, benzinho, que eu vou deitar daqui a pouco na rede e ficar "pensandinha" em você olhando as estrelinhas e fazendo a rede tremer. Eu não esqueço você... Mas o que eu tava falando é que o Dino tomou o pau pereira que eu tinha e o Dino suava coitado arrastando esses móveis pesados porque quem fazia força era ele. Até que ficou tudo do jeitinho que eu queria. A escrivaninha de frente pra janela que dá pra uma floresta, que é pro Cláudio quando se sentar nela ter mais motivo pra continuar sentado sem ficar olhando pra mim com aquele olho de quem tá vendo tudo mas na verdade não tá vendo é nada. Acho que foi quando ele saiu dizendo "de repente me senti tão sozinho" que eu tive a ideia dessa escrivaninha ali, pra preencher a vida dele aqui em casa. Porque é lindo tudo que eu vejo pela minha janela, e acho que deve ser pra ele também, o céu quase entra dentro de casa de tão grande que é a janela, então coloquei a escrivaninha meio enviesada, de quina, mais de frente que de lado. Meio de quina, só pra dar um charme. Vi o Dino antes de ir embora e tomar o último gole do pau pereira experimentando um óculos amarelo que eu tinha. Eu disse "Leva", ele "Fica bem no palco", o Dino é músico, toca percussão e manda um eletrônico. É cheio de mulher querendo beijar ele, e sem óculos. Imagina com esse óculos, ficou realmente muito lindo. "Leva, é seu.". Ele agradeceu e pediu emprestado o filme "Querelle", eu disse "Leva!", ele "Eu te devolvo daqui a pouco. Se eu não vier até tal hora...", eu "Não esquenta, Dino, quando puder você traz de volta". E aí ele foi, fez reverência na hora de sair, o Dino é muito elegante, mesmo descalço ele é elegante. Ele tirou o chinelo antes de entrar aqui em casa, só quando ele foi embora que eu percebi que ele tava descalço porque ele inclinou a coluna assim, pra encaixar o chinelo no meio do dedão e o outro de segurar marido, aí então percebi que o Dino é mais elegante do que eu pensava porque ele tava descalço e eu não percebi. A gente despoja quando fica descalço, mas o Dino não despoja acho que nunca. Então fechei a porta depois da reverência do Dino, agradecendo, mandando beijos como se estivesse num porto. Tudo em slow. "Agora eu vou sentar na escrivaninha, pegar um café com canela, um choro de vodka, e.", pensei. Já era noitinha. E eu gosto de sentar em frente à janela quando é noitinha. Foi eu fechar a porta pro telefone tocar. Assunção. "Meu amorzinho, acabei de fazer aniversário..." Já vi que vinha coisa... Senti que eu ia ter que sair de casa naquela noite, ontem... "Mas não é amanhã, Assunção? Dia 21? Não é dia 21 o seu aniversário?" "Esse ano é hoje," o sol na casa tal a lua que não sei o quê e não sei o quê lá mais, eu não entendo essas coisas de astros que a Assunção conhece e adora, só sei que ela mandou "Esse ano meu aniversário é hoje, e começou agora, às 18h23". "Hum..." - Paralisei. "Você sabe que você é a única pessoa que eu quero ao meu lado hoje... , ...". "Sei... (?) e você tá pensando em fazer o quê?" - perguntei, porque a Assunção queria ter me carregado pra Búzios esse fim de semana, coisa de querer passar o aniversário em uma cidade onde ninguém a conhecesse e eticétera e tals, porque a Assunção é conhecida aqui, ela faz cinema, cineasta, cineasta de vanguarda, a Assunção é fragmentada, todo mundo conhece um pouco da Assunção. Mas eu tirei a ideia de Búzios da cabeça dela logo que pensei no Cláudio e no Jorjão que iam ficar chateadíssimos comigo se eu viajasse esse fim de semana, e depois eu conto por que eles iam ficar chateados. Bom, pelo menos Búzios não é... – pensei. E esperei a resposta, enquanto sentava na escrivaninha. "Abriu uma pizzaria aqui na minha rua, um lugar lindo, super charmoso, queria que você viesse pra cá e me ajudasse a organizar... Eu queria... sabe o que que eu queria? Eu queria... um encontro só com meus grandes amigos, parceiros, só gente querida. Quero só gente querida hoje perto de mim, e pensei em comemorar hoje porque tá todo mundo acostumado com essa coisa de meia noite, passar meia noite e tals, e eu não vou ficar explicando todo o meu mapa astrológico desse ano pra todas as pessoas que eu ligar. Então fica como se fosse na virada mesmo da meia noite o meu aniversário." – Então não sou só eu que ela quer, pensei... "Pensei nesse lugar porque é baratinho, é pizzaria, todo mundo pode pagar, e eu quero um programa mais leve, nada de noitada boate doideira...", "Eu acho ótima, Assunção, essa sua sugestão...", "Eu preciso, meu bebê, preciso muito de você pra me ajudar a ligar pras pessoas, ir comigo na pizzaria conversar antes com o gerente, ver se ele deixa eu levar uns prossecos, mais uma garrafa de uísque e uma de vodka, e tenho que ver também se lá pode fumar, porque se não puder fumar eu prefiro passar a meia noite no banquinho da praça Santos Dumont. Você faz isso pra mim, de presente?", "Assunção, eu tô sem internet, não tenho como fazer isso...", "Mas não é pela internet, menina, você vem aqui em casa e liga do meu telefone. Na vinda você passa na pizzaria e vê essas coisas pra mim... Eu dei uma fisgada na coluna limpando a casa pra ficar bem limpinha no dia do meu aniversário porque depois que a pizzaria fechar a gente vem pra cá e fica escutando o último cd do Caetano que é maravilhoso. Pedi à minha mãe de presente uma faxineira hoje, mas a puta não veio. A casa tava daquele jeito que você conhece. Acho que eu mereço agora um banho e pensar na noite." "Assunção, eu não posso ir pra aí mais cedo... Adoraria te ajudar, mas não posso..." "O quê que você tá fazendo, sua vaca?" "Assunção, eu tô fazendo um monte de coisas, um monte! de coisas..." "Monte, o quê?" "Monte, desde lavando roupa até..." "Não, dando o cu é que não" – ela ria e ria. "Não, Assunção, infelizmente não estou dando o cu (no momento). Mas faz o seguinte: toma seu banho, pega o elevador, e vai lá ver isso com o gerente. Eu me encarrego de ligar pro Jesus e você liga pro resto. Se bem que nem sei como é que eu vou achar ele porque a porra não tem celular, mas eu tento o fixo, ligo pro 102 e pronto, resolvido. Faz isso que mais tarde a gente se encontra." E desligamos, peguei o telefone da escrivaninha, o fixo, e liguei pro 102. Bastou 1 minuto e meio conversando com a puta da voz eletrônica dizendo "Entendi" "Não entendi. Poderia repetir?" "Não entendi, poderia repetir?" "Não entendi. Poderia repetir?" "Sua puta, vai tomar no meio do seu cu", e desliguei. Tento não perder os nervos. Hoje ficaremos sem o Jesus, se o Jesus não ligar. Pensei isso olhando pra fora, morrendo de vontade de ficar em casa. E descobri que eu tinha colocado a escrivaninha ali não só por causa do Cláudio, mas porque eu também ia adorar ficar sentadinha ali, as perninhas pra cima, olhando a paisagem. Porque eu vou te falar uma coisa, se tem uma coisa que me comove é a paisagem. Depois da música, porque a música é a coisa que mais mais me comove. Mais mais mais. E nem tem jeito de fugir porque em tudo que eu faço tem uma música que acompanha. Por exemplo, tenho uma que se chama "Descendo a escadaria do 336", que é quando o elevador tá quebrado e eu tenho que descer de escada que é dó dó dó dó ré dó dó dó dó dó dó dó ré dó dó dó fá dó ré mi ré sol dó mi , tudo dois por quatro, eternamente no ritornelo, até chegar no térreo. Até chegar no fá são os degraus, daí pra frente e antes de voltar ao começo são os 7 passos até chegar no outro lance de degraus. A música é realmente impressionante. Foi Ray Charles que disse uma vez que "Pela Música cheguei a Deus. E quando cheguei a Deus, vi que havia chegado ao Diabo. Não quero desfazer este pacto por toda a eternidade". Esse disse tudo. Agora vou tomar banho pra sair. Meu benzinho, estou te esperando de volta. Um beijo, da sua, L.R.

Fragmento

Tela de Balthus
Tome a hóstia sagrada que me sai de forma despudorada do meu terrível corpo tomado pelo pecado e pelo prazer da carne. Purifica-me com tua saliva sagrada me traga de volta à luz que um dia vislumbrei quando criança do alto de uma montanha.

E havia um homem grande do meu lado, grande não, enorme, tinha que deitar pra ver ele inteira. E via de perto porque ele se deitava em cima de mim sem fazer peso e me falava no ouvido a história de cada estrela e eu adorava ouvir essas histórias, e cada uma que eu ouvia e via ele me mostrava que tinha alguma correspondente no meu corpo monocromático. Monocromático, sim, é como você gosta de dizer. Ele dizia assim também. E uma amiga gosta de dizer é que as estrelas não dormem.

Quem não dorme sou eu quando não tenho seu corpo purificado pela morte sobre mim, assim como não posso ter tranquilidade se penso que está a seiscentos quilômetros desse jazigo da salvação.

Aqui jaz uma ninfeta de proveta. E a b...

seria minha obra máxima e se submeteria ao poder absoluto do seu correspondente.

Guardo-a

como quem guarda

o ovo herdado e jamais esquecido, ou

o homem descendo as escadas (original!). Guardo pra quando os seiscentos virarem dois e nessa contagem armo minha rede e conto as estrelas e lembro do homem da montanha mas aquilo passou e o que vale mesmo é que hoje

posso contá-las e reconhecê-las em meu corpo estendido e aberto às tuas carícias e à tua língua divina.

Ouvi dizer que o Herbert adora o pensamento negativo, mas se eu pensar ruim eu vou ficar muito triste e aí é que eu não vejo estrelas mesmo. A cama é uma delícia, macia, e só dá vontade de ficar ali e olhando pro céu. Ela treme quando eu fico assim, deitada de barriga pra cima e olhando pro céu. E aí tem aquele Einstein que você me mostrou na praia e que é só eu me lembrar que aí a cama treme mais ainda. Engraçado né carinha como que o corpo da gente é engraçado. E por falar em engraçado, então, aquele rapaz super super do Paraíso, fiquei lembrando as histórias dos cus que ele queria comer. É que quando subo na rede só me vêm essas histórias na cabeça. Por isso que é engraçado mesmo. Tudo fica uma putaria só, e tem aquela do pai do rapaz que passa e toma um susto danado quando olha na abertura da porta meio aberta meio fechada do quarto do filho. Também, quem mandou ele olhar, saiu correndo pro quarto da cigana que jogou pra lá as cartas que tinha nas mãos, e aí começou a putaria geral.

Agora eu vou ter que ir que sempre que eu quero escrever alguma coisa pra você alguém chama no telefone pra fazer alguma coisa. Nem aqueles seus escritos eu pude ler ainda, aqueles que você deixou pra eu me lembrar de você enquanto você estivesse nos seiscentos e eu no ponto zero, de retorno. Porque você vai retornar né. Senão aqui não vai ser mais o zero,

mas a chegada e a partida

porque sem você eu não fico mais aqui. Levo minhas coisinhas todas embaladas na rede, aquela calcinha que você gosta e a cueca que você deixou pra eu ficar namorando enquanto você estivesse nos seiscentos. Mas você sabe que além da sua cueca eu fico também com o Marcel, o Herbert, o Albert 1, o Albert 2, o Ernest, o Edgar, e que eles ficam aqui comigo, você sabe, mas deles você não tem ciúmes. Só quando aquele menino de fora veio aqui que era pra gente ver um filme daquele cara engraçado que nasceu em Iquique, uma cidadezinha do Chile menor que a minha, onde eu nasci. Dele você também não tem ciúmes, do chileno. Só do menino que veio ver. E talvez do filme, porque aqueles dois que vão pro deserto juntos e ficam andando o filme inteiro sempre pra frente pra encontrar uma cidade que ninguém sabe onde é nem nunca viu mas todo mundo já ouviu falar, que é aquela cidade onde todo mundo é feliz. Mas o que você não sabe é que no filme eles não encontram a cidade, e

deve ser porque ela não exista.

Quando você voltar vou te dizer isso, que a cidade não aparece no filme, deve ser porque eles não sabiam que tipo de gente poderia nessa cidade, e aí você vai ficar um pouco mais tranquilo. Mas o menino fala as coisas todas do Wilhelm (é William, que se diz aqui?), das óperas que ele gostava, dos cinco prefácios que nunca viraram livros, tem gente que tem tudo decorado, acho que ele tem também. Eu decoro são as frasesinhas que eu canto pra você olhando as estrelas um dó sol ré mi ré dó lá dó sol lá lá sol mi ré dó si ré dó, isso quando eu tô calma na rede coçando minhas ressequidas canelas, como disse aquele menino da história da Hilda, enfim, quando tudo tá calmo e sem vento nenhum e que eu canto isso com suavidade. Porque tá fazendo frio aqui e quando ta frio eu não fico nada calma, os meus peitinhos se arrepiam quando venta forte, e quando cai uma chuvona daquelas que caiu ontem então, pior ainda; e você não viu por causa dos seiscentos, mas acontece que quando caiu essa chuvona tudo endureceu tanto e meu corpo foi se encolhendo na rede, e a rede ficou pequenininha pra me cobrir toda encolhida, e eu sentia muito frio, e então saíram umas coisas modais que o vento soprava com a água que caía direto no meu olho, fazendo arder, tava muito ácida aquela chuva, e aquele frio todo o ardido, só pude fazer umas coisas estranhas, modais, que se o Moacir fosse vivo ele deixaria eu chamar de Coisa nº 17 e eu ia pedir pra ele o 17 porque 17 é o meu número de sorte. Sol sol lá dó mi si lá ré lá dó si ré mi sol ré dó lá mi mi ré dósoldósoldósol si mi ré lá, foi isso que saiu. Sol sol lá dó mi si lá ré lá dó si ré mi sol ré dó lá mi mi ré dósoldósoldósol si mi ré lá, com a maior variação rítmica que você possa imaginar. Dá-lhe fusa e semicolcheia. Sol sol lá dó mi si lá ré lá dó si ré mi sol ré dó lá mi mi ré dósoldósoldósol si mi ré lá. Mas chega de cantar porque o telefone tocou de novo. Quando é que eu vou ter sossego pra te escrever direitinho e com calma hein? E não é só por isso não, é que depois que todo mundo tem telefone ninguém faz mais nada além de telefonar pras pessoas. Só que eu não quero falar, eu quero estudar, o Ingmar vai ficar chateado de novo comigo porque eu vou sair, e dele você também não tem ciúmes, ele me pediu pra ficar em casa que ele me ajudaria a consertar aquele meu relógio tic tac que eu ganhei de presente por causa dele. Porque o último filme que eu fiz começa com esse tic tac, e ele sabe que foi em homenagem a ele. Então quis muito me ajudar nessa. Depois, quando eu voltar, vou continuar aquela história do frentista que te falei e que não sei mais se é frentista, talvez algum cara de uma conspiração que eu vou saber qual é, e que é só eu ficar quieta sem telefone que eu descubro. Mas aí só mais tarde quando todo mundo estiver dormindo, a única hora que eu consigo pensar no frentista. Ops, no cara da conspiração que virou frentista. Por um dia, dois ou 17. Ou ele é algum Segein que resolveu deixar de lado o campo fechado do audiovisual e de procurar o tal rio que ele diz que passava embaixo do asfalto daquela avenida, aquela maior de todas, e que tem até documentos que comprovam mas que ninguém nunca viu, talvez ele nem os tenha, então pode ser que ele tenha desistido dessa do rio e do audiovisual pra investir na concentração de monóxido de carbono. Razão e Revolução!, ele gritaria às três da tarde embaixo do relógio da Central. Mas também não sei se é uma boa, o Segein tem essa mania de querer ficar passando Cera Luminosa no corpo inteiro, até no ouvido que já tem cera natural ele passa a Luminosa, dizendo que é pra não gripar. Aí não encaixa muito no cara que forja todo um esquema de combustíveis e faz o trânsito da cidade inteira parar. Tem também aquela história das estatísticas que surgiu no Pierrot quando eu conversava com minha amiga das montanhas. Essa eu não sei nem como começar e nem sei se vai ser de estatística, a gente andou conversando depois. O que eu sei é que acordei e enquanto passava o café, o Cláudio que você conhece, ele dormiu aqui em casa porque disse que queria pensar numas coisas, umas idéias, e que era mais fácil pensar aqui em casa que na casa dele, não sei por quê, não conheço a casa dele. Acontece que enquanto eu passava o café o Cláudio não falava nada, ficou calado o tempo todo sentado à minha frente me olhando passar o café, olhando assim, com o olho parado, então não olhando na verdade, mas aí tocou a campainha, e quem era?, o Jorge. Chegou dizendo um monte sobre o Al Gore e que o mosquito da malária é o maior defensor da floresta amazônica e coisa e tal. Só sei que nessa hora o Cláudio levantou o olho e deu um sorriso pra mim como se dissesse é agora e daí por diante eu não entendi mais nada, eles foram pro escritório e começaram a falar muito baixo, como se planejando alguma coisa. Mas não eles gostam mesmo é de discutir, botar as idéias e a imaginação pra funcionar. O Cláudio queria mesmo era um motivo pra dizer alguma coisa, ele queria falar mas não sabia escolher o quê, porque a cabeça dele é sempre a mil por hora, e então quando tá a mil e duzentos ele paralisa que nem paralisou nessa hora que eu te falei. O Jorge é uma pessoa engraçada, eu adoro o Jorge. Adoro ouvir as coisas que ele fala, me parece uma pessoa muito sábia, e as pessoas sábias dão vontade de você ficar perto o tempo inteiro, e é pena que eu encontro pouco com ele. Depois da conversa com o Cláudio ele foi em embora, e o Cláudio também um pouco depois. Ainda tomou mais um café com bastante açúcar e canela, pegou a pasta dele, tocou a maçaneta, virou-se pra trás, pra mim, e disse “de repente me senti tão sozinho”, e foi. Sozinho. O Jorge já é um pouco diferente, quando ele saiu, disse “no fundo de todas as almas massacradas, o elo de união”. E foi também, mas não tinha nada nas mãos.

O que eu não te contei é que ontem eu abri a mala que levei pra casa do Zé no ano passado, a última vez que eu fui lá, e me deu uma secura no peito antes de abrir essa mala porque você sabe que ele morreu e eu não pude me despedir dele. Nem dizer o que eu sempre dizia, mas queria ter dito antes dele morrer, que é “Zé, eu te amo. Vou, vou sim, eu vou pra aí, faço muita comida gostosa, a gente vai ao supermercado e dança com o carrinho. A gente dança, canta, enquanto procura aquela mostarda que você gosta. E aí a gente chega em casa abre o vinho, eu cozinho enquanto você me conta histórias. Quero muito, ta apertado mas dá, eu tô indo pra aí. Verdade! Juro!”. Queria ter dito isso, fiquei de ligar, as coisas passavam, eu louca pra ter notícia, alguma coisa me dizia. Mas não liguei, não pensei que ele fosse agora, sei lá o que pensei ou não pensei. E nessa mala tava todo o figurino que eu usei pra fazer ele, porque eu fiz ele no teatro, eu me vestia dele e falava como ele e falava as coisas que ele falava, tudo como ele tinha escrito e me dado um dia num bar de Belo Horizonte, o Lucas, e que ele escreveu uma dedicatória “para minha amiga companheira de sonhos...”. Aí eu montei em seguida no teatro. Mas nesse dia do bar, ele tinha acabado de ver a sobrinha dele que eu mostrei pra seiscentas pessoas (me lembrei de você com os seus seiscentos que vão virar zero daqui a alguns dias) e mandei logo uma frase bem cabulosa pra ele, que a sobrinha falava (a sobrinha não falava, entenda, ela só falava através de mim), na frente de todo mundo, a frase perguntava se é mais gostoso ser lambido que lamber, e esperei ele responder. E ele respondeu que era mais gostoso ser lambido que lamber. Depois disso é que nós fomos pro bar e ficamos lambendo só gelo mesmo a noite inteira e falando de arte e de umas promessas com ele e a mulher dele, que é linda. Quando eu dormia na casa dele era assim, a gente acordava, ia pra mesa tomar o café e contar os sonhos. Depois cada um pegava um livro e lia o que tinha achado de mais interessante que o outro soubesse daquele livro. Depois cada um ia pra uma rede e ficava lendo pra terminar de acordar, com café e canela na caneca esquentando a barriga, e depois ia cada um pra um quarto pra escrever e só saía de noite pra jantar. Eu que ia sempre cozinhar porque gosto, e todos gostavam da minha comida (ou de não ter que fazer comida). Silenciosa janta, que cada um tava com suas histórias na cabeça completando o silêncio. E sabe que eu tinha medo daqueles cachorros todos, mais de oitenta na casa, e a primeira vez que eu fui lá ele me protegeu dos cachorros e nenhum deles chegou perto, porque podia ter matilha e tudo, mas era ele que mandava na matilha, tava acima do chefe. Então ninguém mexeu comigo. Até o Raí, que era o aspirante ao chefe e o mais agressivo e que mordia todo mundo que chegava de fora, gostou de mim. Aí que eu comecei a gostar de cachorro, mas de matilha. Cachorro que vive solto, não de apartamento de madame. Depois te conto a história da madame que bateu aqui em casa ontem à tarde, pouco depois da Rita sair, e ela bateu achando que eu lia mão ou jogava carta ou coisa assim, depois te conto o que aconteceu quando soube que eu faço o que eu faço.

MOÇA (em off)

Tela "A jornada do Romace - Cena 4" - de Eric Fischl

Qual o tamanho dessa boca que não cala?,
Entre sussurros e abafos nas noites
Aparente-calmas?...
Do silêncio que mata?,
Entre o nada das fronhas bordadas na sala?...
Qual o tamanho?
Da palavra no pensamento?...
Do silêncio na sala de jantar?...
Qual, qual o tamanho?
Da dor voltante?,
Da morte obscura?
Do amor perdante?;
E da saudade dura,
mas não cura?!
Qual?
O tamanho?!
A intimidade deseja
E recorda
Tanto que o esquecimento
Nesta hora não importa.
O direito é de quem tem.
A liberdade, quem quer.
Ainda que eu supusesse o por quê das coisas
Não chegaria onde realmente imagino.


Qual o tamanho, a altura?

Do décimo primeiro andar até à rua?


XVI

Tela de Piotr Naliwajko


Maria perdeu sua filha de dezesseis anos num desses acontecimentos urbanos que ninguém vê, e no final das contas descobre-se que ninguém tem culpa de nada, exceto quem morreu. Porque o morto todo mundo vê e ele tem culpa sim, aquilo esparramado atrapalhando o trânsito!, olha só, minha senhora, essa pilha de denúncias de gente que perdeu vôo, olha só, gente importante! e que trata de assuntos importantes! sobre o nosso país, não podem se atrasar porque os negócios não atrasam, minha senhora, os negócios não-a-tra-sam!, e nós devemos andar no compasso dos negócios. A senhora entende, não é? Leve-a pra tomar um pouco d’água, a senhora deve se acalmar, eu também sou pai de família e posso entender o seu sofrimento. Mas o que aconteceu está acontecido, não há nenhuma evidência concreta que prove o autor do acontecido, agora o meu dever é não deixar que aconteça outra vez. E pra que isso não aconteça outra vez, é preciso trabalhar. Eu preciso trabalhar, minha senhora. Com licença. Foi um prazer. Ah!, o tempo cura tudo, o tempo cura tu-do, minha senhora.

Depois de dois anos, Jéssica, a mais nova, completara a última idade da que morreu. Maria comemorou com um almoço farto para as duas e consentiu que a filha saísse à rua “Às dez, de volta pra casa!”. Afinal é carnaval, e é impossível prender uma moça de dezesseis em casa quando chega o carnaval.

Isso de carnaval nunca agradou Maria porque alegria demais não agrada Maria. Maria é cristã de nascença e não ultrapassa os limites da compaixão, da contenção do pecado, da sexualidade comedida. Maria, sendo cristã, ocupa-se de viver pensando no além, em céu e inferno, juízo final, essas coisas. Maria, quando chega o carnaval, não põe os pés fora de casa, e isso lhe traz a agradável sensação de remissão dos pecados, e sempre que Maria se purifica, logo vem a vontade de cometer um pecadinho, já que em suas contas um bom crédito sempre é debitado pelo sacrifício.

Maria foi até o quarto da morta e abriu a mochila que teve que buscar no IML, há dois anos. Abriu e logo encontrou um caderno, e Maria não é boba, pode ser cristã mas não é boba, ela sabe que, dependendo do caderno, não há nada mais pessoal que qualquer outra coisa. De sua curiosidade pela vida alheia, somente ela, Deus e a filha morta sabiam. E a filha morta está morta, e o morto, dependendo do morto, vira santo, não julga as fraquezas de quem está na Terra. Apoiou o caderno nos braços, equilibrou os óculos no nariz craviado (Maria sabe que beleza e limpeza demais são pecado), e se pôs a ler. Afinal, ler aquele caderno também era pecado, mas Maria não se importou em gastar todo o crédito que Deus lhe dera por não ter visto, nem da janela, qualquer obscenidade carnavalesca. Porque há tempos Maria queria ter lido aquilo, mas como Maria é sempre muito correta, e as pessoas corretas sabem esperar pelo momento certo, sendo que geralmente esse momento certo coincide com o momento permitido por Deus, Maria não sentia culpa alguma. Na primeira página, leu a frase de um poeta que ela não sabe dizer o nome, mas a frase é a seguinte: “Na alegria, jamais consigo cantá-la em meus versos. É somente aqui, na mais profunda tristeza, que eu consigo cantá-la”. Achou bonita aquela tristeza e seguiu adiante, passando rapidamente às intimidades da filha morta, e por ali continuou. Até que dormiu o sono dos justos, ali mesmo, esparramada no chão do quarto, e pensaria, quando acordasse, que aquele sono foi Deus quem lhe mandou. Mas não teve tempo para isso porque, tão logo amanheceu, o telefone tocou. Maria acordou num pulo, atravessou a casa vazia, atendeu o telefone, e aquela voz ela conhecia. ‘Minha senhora...’

Voragem

Se me pensasses, Vida, que matéria
Que cores para minha possível sobrevida?
HILDA HILST




Veio o toque da sirene. Terminada sua primeira aula, ela despediu-se do professor, voz e cabeça baixas, organizou sua mochila que havia displicentemente deitado na cadeira de braço quando ali chegara com dez minutos de atraso, numa das trinta cadeiras de braço desocupadas que reinavam naquele cômodo preenchido pelas notas dó sol fá mi ré dó do piano de cauda, ali - onde passara a última hora tentando tornar falantes os seus dedos e falanges, estendidos sobre as teclas amareladas e pesadas de um piano que já falava antes mesmo dela nascer.

Sempre fora, desde pequena, uma menina pacata com leve síndrome de autismo, sempre pelos cantos lendo gibis e livros de contos fantásticos. Suas sardas, sua pele alva, seu óculos de aro verde com dois graus e meio de miopia davam-lhe o contorno perfeito de uma caricatura angeliana. Suas mãos delicadas mudavam a página das histórias como se tocasse uma nota harmonicamente perfeita para aquele momento. Foi quando percebeu isso que teve o primeiro impulso de um desejo que, até aquele dia, ficara guardado para si – o de se tornar pianista.

Sentia que alguma coisa mudara lá dentro, terminados os primeiros estudos daquele dia. Não foi capaz naquele momento de organizar a mochila da mesma forma que foi feita antes de sair de sua casa, e por isso sobraram-lhe dois livros para o braço esquerdo: Contos de amor rasgados, da Marina Colasanti, e Do Desejo, da Hilda Hilst. Já era moça, completara dezesseis no mês anterior, e sabia bem o que lhe aprazia na leitura. Aliás, desde pequena sabia. Sua aproximação natural com o universo das palavras fez com que desde cedo ouvisse sua própria voz falando baixinho, em pensamento.

Ergueu-se, acomodou a mochila nas costas e mirou a porta de saída. Fez um giro em torno do próprio eixo, posicionou-se frontalmente ao professor e acenou, confirmando sua ausência. Girou a maçaneta automaticamente e saiu. Sentiu o ar frio do corredor, imaginou a marca de dezoito graus no termômetro do ar condicionado, atravessou-o ainda de cabeça baixa, mas não a mesma cabeça que trouxe de casa. Engraçado, ela sabia que alguma coisa nova se remexia, mas não conseguia identificar cor nem textura. Era novo. Era novo! Os livros estavam pressionados pelos dois braços à altura do peito com os seios ainda em formação e foi neste momento que este peito arfou descompassadamente na vontade quase incontrolável de possuir olhos que a fizessem mirar a imagem estática que diminuía às suas costas, em sentido oposto.

Deteve-se à frente do elevador e sinalizou sua urgência com o toque do dedo indicador, o mesmo das notas harmônicas, no botão que se acendeu indicando sua retirada voluntária dentro de alguns minutos. A maçã do seu rosto corou-se quando percebeu seu ritmo interno acelerado, e a sensação de que todos - mesmo não havendo ninguém nas proximidades, podia haver alguma câmera de controle interno (!), - a viam corar-se, fez com que sua compostura se desmanchasse neste tempo de subida ou descida do aparelho que a levaria de uma vez até o terraço do edifício. Seus olhos agitaram-se, sem encontrar foco, traduzindo em movimentos o que se movia em seus escondidos. Sentiu que um sem-número de olhos brotavam dos buracos das maçanetas, das frestas das portas, dos tacos do chão de madeira, dos encanamentos que se abriam em orifícios das mais diferentes desembocaduras, servindo de passagem aos mais diversos espécimes de abjetos, e por isso haveria um solo muito fértil para mutações grandiosas de olhos dos mais diversos focos e cores e formatos e ardências e esses olhos se multiplicavam como câncer e tomavam a natureza das moléculas rígidas das paredes, dos concretos, e surgiam por entre as páginas dos seus livros ainda apoiados no braço esquerdo, e daí lembrou um conto de Mora Fuentes onde é relatado um sonho em que há uma proliferação incontrolável de chineses vários seres chineses minúsculos brotavam dos adentros de um senhor, da sua narina do seu ouvido do seu cu e os chineses vão dominar o mundo, doutor!, os chineses vão dominar o mundoooooo!, ele dizia. Escutou um eco mundooooo. Escutou outros ruídos estacionados em seu tímpano, vindos não sabia de onde, que não conseguiu traduzir. Eram ditos em outra língua ou dialeto, que ela desconhecia.

Toda aquela turbulência não lhe permitiu que permanecesse ali, estática, esperando o elevador. Não se conteve - correu para a escadaria suja e desceu os onze andares com uma pressa só experimentada em sonhos, o mesmo sonho de sempre quando um homem alto de camisa verde corre atrás dela, que foge desesperadamente. E ele vai chegando perto mais perto porque sua perna é maior, quando finalmente ele a agarra com as duas mãos enormes e quentes e olha dentro do seu olho frágil, olho de boi ele tem, e é nesse momento que ela sempre acorda. Ouvia seus próprios passos em cada degrau e cada passo tinha uma sonoridade diferente - o oco do piso o rachado a beirada de alumínio pra não escorregar. Só mais um vão e virá aquela placa de xerox. Veio. Veio, passou e chegou ao térreo. Olhou para a esquerda e, ao olhar para a direita, encontrou a porta de saída.

Empurrou a porta de vidro e veio o bafo quente de todo centro comercial de toda cidade grande. Agora se sentia melhor, como se tivesse passado por um feixe de luz por onde os personagens de contos infantis sempre passam quando vão buscar a realização de algum desejo. Entrou na lanchonete mais próxima e pediu um suco de beterraba, laranja e cenoura. Ela precisava pensar, entender, raciocinaaar (!) e pediu o suco mais demorado por isso. Precisava entender o que estava acontecendo, tinha que encontrar explicação. De onde, a natureza de tudo aquilo? Aquele homem, o descompasso... Sentou-se no banco, depositou seus livros no balcão de vidro que exibia joelhos coxinhas e afins, trouxe a mochila ao colo e mirou o atendente batendo no liquidificador aquele líquido vermelho, beterraberrante. Ah, o líquido é vermelho! É vermelho! Veio a voz súbita novamente no seu ouvido. E o líquido girava. Vermelho!

Tirou rapidamente de sua mochila o valor do suco em moedas, jogou-as no balcão e fugiu.

Quando virou-se o atendente, viu o dinheiro. E só.
Depois viu Contos de amor rasgados e Do Desejo.

Mais nada.
Nem ninguém.

Carta-testamento de uma jovem defunta nua

 


L.H.O.O.Q.
MARCEL DUCHAMP
Também pode ser lida como
"Elle a chaud au cul"

O ser humano pode expandir-se
até dimensões de mundos e épocas sem mover um dedo;
ele pode preencher a eternidade dentro de si mesmo
ainda que, arquejando, morra ao fazê-lo.
Ernest Becker




Ah, meu querido, como te amo ainda que morta, tendo-te para sempre tão presente dentro de mim.

Sigmund disse que o homem se sente Imortal porque desconhece a Morte e o Tempo, e provavelmente ele tenha dito isto porque passou a vida sonhando com Ela, a Morte, em meio às sinusites enxaquecas e prisões de ventre que lhe eram habituais.

Conheci a Morte no momento em que te vi, e na noite que sucedeu nosso primeiro encontro, Ela veio-me em sonho e afiou Suas Garras em meus dentes (e permaneceram em plena harmonia os meus sentidos, ao contrário dos daquele psicanalista). A partir desta noite, Ela passou a freqüentar-me a fim de polir seu crescente Poder - e nisso o Tempo estava sempre presente -, e quanto mais aproximava-me de ti, mais o meu Gozo Silencioso reproduzia-se como câncer dentro de mim. Passado certo Tempo, passei a ver-me com freqüência no topo de um Todo-Branco que derramava luz às minhas recentes obscuridades (sim, porque a juventude é repleta dos escuros).

Esta minha cega composição – a cegueira preta da juventude e a branca da reprodução de ti em mim -, conduziu-me naturalmente a um desfiladeiro que mais tarde obrigou-me ao tão sinalizado encontro irreversível com a Morte e a Vida. E para que este encontro fecundo se realizasse em sua plenitude, o mais certo seria que, no instante da Grande Virada, o teu Todo-Poderoso me entubasse o Prazer Absoluto acumulado e o nosso Gozo Profundo me impulssionasse em direção à luz que tomaria-me o semi-corpo ainda trêmulo e depositário do teu Sêmen Divino. Mas como não estavas por perto, tratei de despir-me rapidamente no furor daquele instante a confundir-me a mortalidade, e com a mesma fome dos deuses, estendi-me nua ao chão em decúbito ventral e abri braços e pernas à espera de que, depois de morta, o teu Bruto Teso me possuísse calmamente o corpo límpido fresco e virgem, aparentemente inabitado de vida.

Neste Grande Ato faminto das Paixões, quando enfim me possuirdes, sentirás o quanto de latência ainda vibra por ti em minha matéria e perceberás que o Amor contraria todos os conceitos e lógicas e ciências estupidamente humanos.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Tela de Lucien Freud


Que sem sua voz, me esparramo na cama e fabulo desejos. Algo que se faça em vez de. Mas nada, nada, nada...

Joãozinho I

Quem era um menino bacana, sabe quem?, sabe o Joãozinho?, pois é, o Joãozinho! Aquele sim, era uma pessoinha ba-cana, viu. Ai ai... que menino! Que delícia de menino!... Praquele ali não havia tempo ruim não. Porque o joãozinho era assim: “Joãozinho! Nossa, Joãozinhoo... sabe o quê que é? Posso te pedir um favor? ... Então, sabe aquela padaria ali na esquina? Aquela de sempre? Aquela?! ... Ah, Joãozinho...”, e ele ia sem triscar. Joãozinho gostava de andar. Nossa, como gostava! E eu me aproveitava dele, com aquele gosto todo de andar. E como andava bonito, né não? Joãozinho era classudo. Ia andando, e todo mundo olhando. Olha, você pode até não acreditar, mas andar com o Joãozinho na rua era o inferno dos infernos. Por isso eu chegava em casa e assim que chegava pedia pra ele voltar pra comprar isso ou aquilo que eu esquecia. Porque eu sempre tava com pressa quando tava com o Joãozinho na rua, e quando a gente está com pressa sempre esquece alguma coisa. Aquilo não era desse mundo não, viu. O Joãozinho, realmente... não era desse mundo. Ele nem chiava. Nunca vi o Joãozinho chiar por nada desse mundo. Ele dizia, sabe o que que ele dizia? Que ‘a vida tem que ser levada sem esforço’. Ai ai... eu aprendi muito com o Joãozinho. Moço, novo, e parecia que tinha sei lá, uns oitentanos. Deus me livre! Às vezes ele chegava até a ler meus pensamentos. Mas também, quando se está mentindo não tem nada disso de telepatia, né não? Parece que fica tudo estampado na sua testa, uma loucura. Depois disso nunca mais eu menti perto do Joãozinho. Mas não mentia por sacanagem não. Deus me livre fazer sacanagem! Não gosto dessas coisas, aliás nem sei o que é isso. Não sei mesmo.
Tela de Martha Rosler
Quem pode saber por onde anda o espírito a uma hora quente como essa?
Tela de Istvan Sandorf

a Mora Fuentes

eu daqui não sei de tu! tu inacessível. tu - Kadosh Qadós Zé José Fontes Fuentes Luís que Mora(m) em mim. quando abres os olhos, o que vês? o que pensas, no passar das horas nas noites escuras das claras manhãs na cabeceira-tic-tac no cercado antiséptico no todo branco nas gotas gotejantes nos tubos, o que pensas? nos dois amores? no fim? no recomeço? no que não foi? ou no que virá a ser? pensas na imperatriz gansa? nos rebanhos? na matilha no falconeto? na figueira nos três pedidos na visão? fizeste algum pedido? pensas na Luz ou esperas Aquela que te deu amores e vida e companhia e irmandade e descoberta? ad majora natus sum. tudo virá a seu tempo. enquanto isso, te procuro nos zero onze(s).

Semicolcheia na calçada do Municipal Rio Branco semínima pontuada o sinal se fecha na travessia o movimento continua pausa de semínima quatro por quatro dezesseis semicolcheias Caixa Cultural lê o jornal de quinta passada morte de Henry Salvador o sol que atravessa a imensa janela de onde se avista o Largo da Carioca o imenso sol o contraste mínima pontuada breve contemplação enfia a bunda no sofá branco plotagem de livros que vergonha e ainda se chama de livraria (!) plotagem palavra lembra Bya vivendo e aprendendo saca o alicate da mochila tira cutícula da unha vai ao banheiro escova dente passa remédio na herpes que merda de herpes que saco de herpes nunca sara nunca sara pausa de semicolcheia desce a escada de caracol volta no quarteirão barracas bolsa livros velhos novos evangélicos auto-ajuda diderot lolita patrick suskind cadê cadê aqueles outros aqueles gente boa do sax olha pausa indefinida sobe a escada de caracol sofá branco semínima expresso com biscoito de limão e colher de canela sol fá mi ré dó pausa de semicolcheia escova dente joga fora a garrafa de água da mochila menos peso livros pesam a sala se abre as luzes se apagam as luzes se acendem senha próximo filme pausa de mínima volta no quarteirão o maravilhoso sanduíche com blanquet da padaria café com biscoito de laranja escova dente a sala se abre as luzes se apagam fusa fusa semifusa semifusa pausa pausa pelamordedeus ai ai ai as luzes se acendem pausa de compasso senha próximo filme pausa de semínima volta no quarteirão padaria fechada cadê o sax os livros pausa de compasso mais uma mais uma mais uma café com biscoito de maracujá as luzes se apagam.

Tela de Jean-Honoré

Eu, que a cada dia renuncio fatias do meu lado platônico, avivado pela formação em escola tradicional das freiras apostólicas e romanas, onde se prevalece a razão, e todas as explicações imaginárias do indecifrável tomam forma cor e cheiro na visão limitada dentro de uma vida complexa e sem limites – onde mora sua beleza -, entrego-me hoje sem remorsos a grandes prazeres e mergulhos e bato pernas e asas e abro os olhos no fundo e, quando menos espero, me vêm à boca umas pedrinhas reluzentes que eu seco, guardo e detenho comigo pra iluminar minhas noites escuras.


Catarse

Tela de Toulouse-Lautrec
para G. M.

Os sentimentos vastos não têm nome.
Perdas, deslumbramentos,
catástrofes do espírito, pesadelos da carne,
os sentimentos vastos não têm boca,
fundo de soturnez, mudo desvario,
escuros enigmas habitados de vida mas sem sons (...)
(HILDA HILST)


Olho para trás, com um misto de espanto e perplexidade. Sinto que há aflição em meus olhos, senão eles não se mexeriam tanto. Tento contê-los. Como poderia imaginar tanto furor entre aqueles seres que se mostravam límpidos, suaves, castos até, tendo mãos de mães com cheiro de alfazema... como poderia eu, me pergunto!, imaginar aquelas mãos contra mim, se transmudando em foice em punhal e em... – havia um outro que eu não identifiquei no apressado da ação... O que me faria perceber que ali havia a maldade latente, inacessível, disfarçada no mais puro dos amores? Como me precaveria dessa dor lancinante que vem do ser atacado sem renúncia, sem nenhum resquício de defesa: nenhum músculo meu jamais esteve alerta para contra-atacar, entregue que estava por inteiro em todo momento, e até em sonhos.

Talvez por isso tenha me ferido tanto.

Vejo-os através da janela embaçada com meu sangue já um pouco seco. Eles fumam, bebem e riem, como se ninguém além deles houvesse permanecido ali até poucos instantes atrás. Olho-os fixamente e uma náusea começa a nascer e a se reproduzir no meu adentro todo devastado. Meu corpo quer mover-se, e em meio a ardências e gemidos que me vêm de repente como soluço, dou passos sonoros - arrastados mas vitoriosos - em contra-direção.

A náusea aumenta a cada passo, toma forma redonda e azul (fecho os olhos pra ver) e cresce e gira e cresce ainda mais. Páro. Minha cabeça queima, titubeia, deixo-a pender ao peito, os olhos ainda fechados. Há leveza em minhas pernas - onde as ardências? onde os gemidos? – não sei, só sei deste redondo azul que me domina agora, e é tão lindo, é o movimento, e está vindo, e é quente, e está chegando, e vem subindo, e vem, e vemmm, e VEM, e

(...)




(...)




(...)




(...)

Cuspo o restante do azul. (É quente!). Abro lentamente os olhos e vejo aquele excremento deitado no chão, entre minhas pernas. Borbulhante. Fixo os olhos naquela imagem e penso como é estranho olhar para aquilo sabendo que se formou em mim no momento em que os olhei! E que se fez expelir com a força autônoma dos deuses, da natureza, não sei! Uma força... não sei, não sei, não sei!... Diante disso, percebo que nenhum ressentimento me compõe. Purificada, pulo a poça e sigo.

Em nome de todos os amanheceres.

Braço de Elefante




O ser humano pode expandir-se
até dimensões de mundos e épocas sem mover um dedo;
ele pode preencher a eternidade dentro de si mesmo
ainda que, arquejando, morra ao fazê-lo.
ERNEST BECKER



Ela despertou como sempre um esforço mínimo para abrir os olhos vencendo as secreções e olhou à sua direita como sempre olhava porque havia uma janela a mesma janela aberta por onde passava um raio de sol que àquela hora da manhã batia diretamente em seu olho esquerdo e em um pedaço do seu travesseiro. Depois este sol cairia com a tarde por aquele céu passaria a urubuzada - assim ela os chamava em pensamento - e então adormeceria novamente. A mesma cama branca o corpo imóvel o soro na veia do mesmo braço o braço direito de sempre.

Ela despertou como sempre abriu os olhos vencendo as secreções e olhou com esforço em sua volta procurando alguém e não entendeu por que porque nunca vira ninguém naquele quarto branco e frio então se satisfez como sempre em olhar a janela o mesmo pedaço de céu da janela aberta por onde passava o raio de sol que a essa hora batia em seu olho. Depois este sol caiu com a tarde veio a urubuzada anunciando a noite próxima e então ela adormeceu.

Ela despertou e tão logo abriu os olhos o sol batia em seu olho imaginou um quadro pintado e emoldurado: ela na cama ao centro os urubus à sua direita no parapeito da janela e uma pessoa vestida de branco ao seu lado esquerdo supostamente uma enfermeira esta enfermeira olhava para ela segurando um pano vermelho. E passou o dia pensando se esta imagem seria alguma premonição indicando a chegada de alguém ou se teria sido recuperada de sua memória. Ficou pensando essas e outras coisas relacionadas ao quadro. Caiu a tarde e ela não viu a urubuzada passar nem o céu que se fechava mais cedo. Adormeceu.

A chuva veio forte e ela acordou com trovões viu tudo escuro sentiu um medo terrível daquilo tudo pensou que estivesse morta e foi depois que um relâmpago iluminou o quarto que ela percebeu que não que vivia e pensou que a chuva viera forte assim pra arrastá-la dali. E se lembrou do quadro da tarde pensou não em deus esse deus do abandono e do sofrimento mas na enfermeira do quadro que poderia vir agora e fechar a janela. Essa janela aberta tão grande! a chuva imensa essa chuva que queria levá-la dali e um medo terrível de criança ela mesma fecharia a janela mas suas pernas não se moviam há anos que suas pernas não se moviam ela se lembrou e quis chorar chorar mas o medo e os trovões e os relâmpagos e a água inundando seu quarto o vento forte trazia a chuva até a sua cama em seu rosto e ela fechava os olhos e sentia suas secreções se dissolverem e escorrerem até o seu ombro e o colchão agora inundado o vento frio ela viu brilhar o chão quando veio outro clarão e tudo novamente escuro e a urubuzada em algum lugar se deliciando com aquela torrente e rindo da sua desgraça ela ouviu um murmúrio fundo e se sentiu como há muito não se sentia ela mesma sozinha abandonada profundamente triste e humana.

Depois da chuva o céu lavado fez amanhecer vermelho. Tudo estava como deixara a noite anterior. O sol que batia em seu olho esquerdo era o mesmo sol que fazia a água do chão reluzir no teto e ela da cama olhando aquilo pôde projetar todos os incômodos que a vida lhe causara. Vieram as lembranças. O medo da cobra nas corridas pelo capinzal o medo do homem do saco o medo dos cachorros o medo do monstro do rio o medo da mãe o medo de seus seios não crescerem o medo o medo de ser reprovada na escola o medo da curva da estrada o medo do pai o medo de não se casar o medo o medo do falecido marido o medo de ser feliz o medo medo da morte. O medo. E então sentiu uma revolta muito grande por ter se omitido tanto e se sentiu um verme por não ter conseguido terminar de pintar o seu quadro o quadro da sua vida a vida inteira em um único quadro que arreganhava toda a miséria humana aquele quadro inacabado aquele quadro aquela gente. E sentiu raiva de si mesma e de sua incapacidade. Sentiu ódio da mãe falecida e da sua piedade e da vaidade do marido que ela abafara com um travesseiro na noite em que completariam vinte e cinco anos de casados ai o nojo nojo do brasileiro indiferente essa gente fedida que acorda trabalha e dorme acorda trabalha dorme e fode de vez em quando que é pra foder ainda mais com esse país de merda passando a merda de geração pra geração infinitamente enchendo de dinheiro o rabo do poder ahh o podeeer que cospe em cima da ignorância e acha graça mas isso tudo já foi dito e redito. Sentiu-se aliviada por não ter deixado descendentes.

Baixou os olhos junto com a tarde que caía olhou para o seu braço direito e levantou-o num ato de extrema lucidez como que pedindo uma bênção respirou fundo e desenhou no ar o sinal da cruz que ao ser riscada com tamanha violência fez com que ela se libertasse da agulha do soro que rasgou-lhe a veia. Deitou novamente o braço na cama que era toda branca a palma da mão pra cima pendeu a cabeça entregando-se e ficou olhando o fluxo aquele fluxo que se escondeu por todos os seus anos que somente agora resolveu se manifestar e não conseguiu pensar em mais nada. Somente respirava aliviada enquanto seus olhos se fechavam em frações imperceptíveis até que captaram a última imagem um grande vermelho desfocado.

Ao terceiro dia, veio a urubuzada.

O Despertar-se

E mais um dia ela se levanta olhos atentos ouvidos polidos umbigo teso. Mais um dia recomeça. Coa café lê jornal confere correio eletrônico lava xícaras roupas estuda notas e letras. Abre a janela. A única janela de seu pequeno conjugado no bairro laranjal da cidade carioca. Respira fundo. Passam-se alguns minutos até ela se perceber na mesma posição, o olhar longínquo, braços apoiados no parapeito, pulsos atados e mãos pendidas, e que sua respiração havia se dissolvido com os pensamentos. Tentava lembrar com precisão o sonho da noite passada. Volta a si, tensiona o corpo o suficiente para dar-lhe movimento e vai novamente até a mesa do computador onde, para sua surpresa, há uma carta recém-enviada de uma também recente amiga. Acomoda a coluna no encosto da cadeira, que já estava ali quando ali chegou, encaixa a cabeça no pescoço, novamente uma respiração consciente e se põe a ler.

A carta contém o olhar sensível de uma mulher vivida que a observa. Enquanto lê, pode ver a sua vida resumida em duas dúzias de linhas. Tudo foi dito natural e informalmente até agora, que tudo tomou forma de ás e bês na percepção de outra pessoa. Parou. Levantou olhar e pensamento e surpreendeu-se ao se ver em imagens quase tocantes, dinâmicas e centrífugas, desejosas de se materializarem numa sala de cinema mais próxima dali, no São Luiz ou no Paissandu, se viu nos cafés, e mais - viu as bolhas do leite de seu maquiato se romperem e se materializarem em frações revoltas e microscópicas de ar e ansiosas de liberdade, pôde ouvir seus murmúrios mais internos, aqueles inaudíveis a olhos nus, se viu no ponto de ônibus escuro da noite silenciosa leblonesca, sentada ao lado da Velha Senhora do Rembrandt, que lê, aparentemente inerte, mas mergulhada no mar obscuro das palavras, debatendo-se exaustivamente e em eterna suspensão. O piscar de seus olhos, e as imagens retomaram seu corpo invisível e disforme, invadindo subitamente seu aparelho respiratório, saindo dos pulmões pelas veias e traçando um caminho brusco até seu músculo mais involuntário, forçando passagem de uma só vez em suas quatro cavidades, descompassando sístoles e diástoles, acelerando compassos, redemoinhando ventos em suas cavidades cavernosas.

Firma os pés no chão, arrasta a cadeira para trás, se dirige em passos cadenciados até a cozinha onde liga a cafeteira, despeja impensadamente duas vezes a mesma quantidade de pó e ruma até o banheiro, de onde ouve o grunhido do aparelho que pede a água ignorada pelo esférico momentâneo de seu pensamento. Lembra o esquecimento e neste instante seus olhos se vêem através do espelho afixado acima do lavatório. Joga água suficiente para eliminar a espuma e, com o rosto molhado, refaz o mesmo caminho, agora de maneira decidida e em sentido contrário, abre a torneira da pia da cozinha, deixa que saia um pouco da água parada, enche uma caneca, se lembra de um amigo que só usa água mineral para fazer café, e deixa que a limpidez do líquido caia uniformemente no orifício borbulhante trêmulo e impaciente da cafeteira, sua primeira aquisição quando se mudara para ali. Recorda seu apartamento vazio, sua mochila de roupas, seu cobertor de pelúcia trazido de Minas (que desde então nunca mais fora usado), o colchonete portátil emprestado por um amigo do mais novo tudo novo trabalho, e a entrada triunfal da cafeteira embalada e protegida por bolhas e isopores sob os cuidados de uma caixa feita sob a medida do conteúdo e que avisava em letras garrafais – ‘Cuidado, frágil’. Pela primeira vez se colocou no lugar de um objeto e a partir daí a tudo o que se somou à casa foi despendido o mesmo zelo que fizera a sua primeira companhia-objeto chegar até ali, intacta. Toda soma se tornou a extensão de seu esforço desumanamente humano afim de adquiri-los.

A esta altura as águas do seu rosto e da cafeteira haviam secado. Pega a mesma caneca, ainda molhada, a que antes serviu de medida, e a preenche com o conteúdo uma vez mais forte que o cotidiano. Coloca a quantidade de sempre de açúcar, a que suporta em sua colher de prata trazida consigo na mochila de roupas e que a acompanha desde as suas papinhas e aviõezinhos, na remota quietude lafaietense. Dá um gole no café, sem perceber que está mais amargo, e senta-se novamente à frente do computador, na cadeira emprestada pela proprietária do apartamento. Sempre se lembra disso quando vai se sentar.

Sua respiração voltara ao normal. Sente todas as suas células serem alimentadas pelo ar que circula naquele pequeno cômodo, e que a acompanhará até o fim do dia. Sente também suas pernas formigando em resposta ao longo trabalho do dia anterior e se recorda de que hoje é sua folga, o dia que paga contas vai ao supermercado ao brechó das velhas ao sebo e toma seu café maquiato na livraria vizinha. Dá um segundo gole no café, agora menos quente e mais suportável a ingestões em maiores proporções. Ao perceber isto, dá o último gole, longo e certeiro. Inspira. Deita suas mãos cansadas e trêmulas no mouse, solta sem pressa o ar dispensado, abre o programa de edição de textos e, enquanto este carrega, ela pega seu cigarro de palha que está no mesmo lugar de sempre e, lentamente, retira a borracha que o mantém enrolado e fixa a palha cuidadosamente com a saliva. Acende-o.

Olha a tela. A página em branco. Pensa na carta. Fora a primeira vez que alguém, antes dela mesma, a olhara e despendera tempo com suas questões mais íntimas. Agora com toda atenção voltada para si, ela se põe a escrever e a pintar de cores ou tons diferentes cada minuto passado, os que estão ao alcance de sua memória.

Achaque


Hoje sinto que tudo se omite em mim. Mesmo a fome - vertebrado de asas coberto de penas - procura avidamente um pouso no vazio que se fez em minha matéria, nesta tarde. Saio em busca de um olhar, um som, uma imagem, que tenha suficiente autonomia para se materializar em carne e me reerguer, para que eu prossiga de pés no chão, firmes, pisando a terra em que me transformarei um dia.

Negrume

Para quê?
Essa luz esse mar esse verde

Se nos iludimos
Se imaginamos belezas
Se comemos tristezas
Se vivemos em sonho?

Sonho acordada
Com o dia em que o sol não nascerá
A lua não brilhará
E esse brilho escuro silencioso
Nos fará olhar-nos a nós
A nós mesmos.

O mais fundo dos olhares
O olhar de dentro