Fotos Henrique Chendes

Fotos Guto Muniz

Nosso Tempo

I
Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.
Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.
Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.
(…)
Carlos Drummond de Andrade
Foto Guto Muniz


Fotos Guto Muniz


Fotos Glenio Campregher





“O Atormentador” continua encantando e atormentando o público

Sessões seguidas de debate são a fagulha para o encontro e a troca de saberes e experiências
“O Atormentador” é a mais nova peça que o profícuo diretor Eid Ribeiro coloca em cartaz, marcando a volta da Companhia Absurda aos palcos. Após cumprir duas temporadas em Belo Horizonte, com estreia no Teatro de Bolso do Sesc Palladium e em seguida no Teatro João Ceschiatti, Palácio das Artes, o diretor e dramaturgo dá sequência ao trabalho, fomentando sessões seguidas de debate com o público. A peça estreou em agosto e tem tido um diálogo muito proveitoso com os estudantes, participando do evento anual Jornada das Utopias da PUC-Minas, onde se apresentou para mais de 400 alunos, e também participou do projeto Baixo Centro En[Cena], do Centro Cultural UFMG, e do movimento estudantil V Enet, da Federação Nacional dos Estudantes em Ensino Técnico, com representação da maioria dos estados brasileiros, contabilizando mais de 1.000 alunos. Em janeiro de 2019 participará do Verão Arte Contemporânea, a ser realizada no Teatro 2 do CCBB-BH.

“O Atormentador” não é uma peça de personagens, é uma peça de ideias. As ideias são em suma do atormentador Eduardo Galeano que, sensível e inquieto, muitas vezes colocou sua vida em risco para apoiar o lado dos mais fracos, usando as palavras como arma, tanto para denunciar torturas, mortes e desaparecimentos, quanto para ouvir na clandestinidade líderes dos movimentos de libertação”, diz o diretor.
Experiência extremamente rica com reflexões sociais, mas também com humor e poesia, a trama mescla lendas, fábulas, histórias, utopias e distopias numa delicada dramaturgia em que soam as palavras, os movimentos dos corpos e a sutileza dos gestos. Representada por uma dupla de comediantes vestida como nos velhos filmes de cinema mudo, os atores Glauce Guima e Nino Batista divertem, encantam e emocionam o público com narrativas atuais que colam com o momento em que vivemos, de radicalizações.
QUAL A PESQUISA DESENVOLVIDA NO TRABALHO?
Sem cenário, com a caixa preta aberta, e usando como objetos de cena apenas dois banquinhos e bastões de ferro, “O Atormentador” desenvolve uma linguagem baseada na síntese e na potência da palavra, inspirada nos primórdios do teatro, que o antecederam - a figura esquecida e tão importante dos rapsodos gregos, que levavam às ruas de Atenas a memória e a oralidade que posteriormente foram transferidas para a linguagem escrita, como a Ilíada, de Homero.
A forma de emissão narrativa, em que o ator prioriza a potência do verbo e a valorização das imagens, proporciona ao público um poder que raramente lhe é conferido - o de fazer suas próprias considerações e reflexões a respeito do que está sendo dito, sem que ele se sinta forçado a tal. O processo é tão natural, como é natural a manifestação de sua potência imagética quando entram os textos poéticos.
Aparentemente simples, mas incansavelmente depurado em sua estética do uso das palavras, do movimento dos corpos e da precisão dos gestos. A identificação da plateia é instantânea, embarca na linguagem popular de dois comediantes performáticos vestidos de chapeu coco.
Inspirado essencialmente no “Livro dos Abraços” de Eduardo Galeano, “O Atormentador” traz à cena vozes da alma e das ruas da América Latina, em um momento em que nossa história precisa ser lembrada e repensada, a partir de uma troca real de experiências - atores narrativos e espectadores ouvintes, potencializando, nesta relação, a escuta e a troca de afetos.
Ficha técnica:
Direção e dramaturgia: Eid Ribeiro
Atuação: Glauce Guima e Nino Batista
Assistente de direção: João Santos
Criação de luz: Marina Arthuzzi
Figurinos e objetos cênicos: Marco Paulo Rolla
Direção de movimento: Suely Machado
Trilha sonora: Eid Ribeiro e João Santos
Fotos: Guto Muniz
Projeto gráfico: Liz Schrickte
Vídeo do espetáculo: Byron O’Neill
Teasers: Victor Burgos/ Câmera Lenta
Redes sociais: Djavan Henrique
Assessoria de imprensa: Glenda Souza
Apoio: C.A.S.A - Centro de Arte Suspensa e Armatrux, Grupo de Dança Primeiro Ato e Centro Cultural UFMG
Produção: Cia Absurda e Aviva Produções
Facebook: O Atormentador
Instagram: @oatormentador


  









Estares

 - com Bertolt Brecht

 - com Albert Einstein

 - Com Alfonsina Storni

 - com Carlos Drummond de Andrade e Camilo Bevilacqua

 - com Charles Chaplin

 - Em um Escher

 - com Freddy Krugger

 - com Manuel Bandeira

 Hans Eisler, Bertolt Brecht e Gil Esper

 - com Harold Pinter

 - com Jean Luc Godard

- com Macedonio Fernandez

 - com Marcel Duchamp

 - com Marcel Duchamp

 - com Nosferatu

 - com Nosferatu

 - em um Lucien Freud

- com Richard Wagner

- com Eugene O' Neill

 - com Jacques Lacan, Jean Paul Sartre, Albert Camus, Michel Leiris, Jean Abier, Cecile Eluard, Pierre Reverdy, Louis Leiris, Pablo Picasso, Fanie de Campan, Valentine, Simone de Beauvoir, Brassai

Só para recomeçar!


São muitas as urgências que o nosso tempo impõe, e a nós que somos o teatro é imperativo arejar o tempo com palavras necessárias, preencher o vazio que está sendo imposto, resistir, mostrar a suficiência de nossas vozes e corpos – atrizes, atores - narradores. Primeiro mostrar quem somos, a viemos, de onde viemos (rapsodos, griots) sem as mistificações que também nos esvaziam. Sermos um pouco - só pra recomeçar! - apenas o que somos: veículos da cultura, contadores de mitos, fábulas, histórias; instauradores de um rito cultural ancestral comum.

Sala para Rapsódias